07/04/2013

“A uma ausência"

Sinto-me sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta
O mal, que me consome me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado;

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me, atormentado;

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do menos que se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim como em deserto

[Poema barroco do poeta português Antônio Barbosa Bacelar (1610-1663)-
Sobre os paradoxos da alma humana]

06/04/2013

Ozymandias Melancholia
      
“It’s a perfectly valid description of a particular phenomenon. It’s that sad and depressed feeling you get when you realize that no matter how great and majestic and important something is at the time, in time it’s going to pass. Just like the poem - eventually, time kills everything. It’s just that rotting statue of Ozymandias, a once-great statue, and now a broken-down piece of marble in the desert. So you get a depressed feeling because it gives you a sense of the futility of life, that all that you’re working for, and all the things that seem so meaningful, are nothing.”  

Woody Allen

25/11/2011

Trecho de "Macunaíma", de Mário de Andrade.


"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. [...]
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar, exclamava:-- Ai! que preguiça!. . . e não dizia mais nada.[...]
Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto era sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que 'espinho que pinica, de pequeno já traz ponta'."

[Deliciosamente simpático é o nosso herói sem nenhum caráter! Melhor ainda é a linguagem de Mário!]

Trecho de "O cortiço", de Aluízio Azevedo.



" — É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. — Prendam-na! É escrava minha!
A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.
E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.
João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos."

[Morte de Bertoleza. Sobre a animalização da personagem na literatura naturalista]

21/10/2011

Poema "A dream within a dream", de Edgar Allan Poe

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?


[Poe, apaixonante]

Trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

"- Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou..."

[Um dos trechos mais cativantes do livro]

19/07/2011

Trecho de "Admirável Brasil Novo", de Ruy Tapioca

"O povo brasileiro é o que mais sabe votar no mundo! Vota por identidade! Há séculos escolhe, com enorme competência e descortino político, os candidatos mais patifes, os ladrões contumazes, os velhacos de sempre, a caterva de políticos que sempre se eternizou no poder!"

[Romance sobre o Brasil em 2045. Qualquer semelhança com a vida real não terá sido mera coincidência!]